Maria, mãe da Misericórdia.

“MARIA, MÃE DA MISERICÓRDIA”

I. MARIA, SINAL DA MISERICÓRDIA

1. Maria, espelho do amor maternal de Deus Pai
O jubileu da misericórdia é uma oportunidade para redescobrir a maternidade de Deus. O Antigo Testamento, na língua original em que foi escrito, isto é, o hebraico, utiliza duas palavras para descrever a misericórdia de Deus. Uma faz analogia ao amor do pai e a outra ao amor da mãe. Portanto, o termo hesed expressa o amor paternal (cf. Os 11, 1-4), pois o amor do pai é fiel e perdoa sempre o seu filho. Já o termo rahamim, por sua vez, expressa o amor maternal (cf. Is 49,15), pois o amor da mãe para seu filho brota de suas entranhas, ou seja, do seu ventre materno. São Francisco de Sales afirma: “Deus é maternalmente paternal”.
A esse respeito, o Papa Francisco alude na bula de preparação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia: “Pela sua misericórdia, Deus revela o seu amor como o de um pai e de uma mãe que se comovem pelo próprio filho até o mais íntimo das suas vísceras” (Misericordiae vultus, 6).
No cântico Evangélico do Benedictus, em Lc 1, 78, traduzindo do latim se vê: “Graças à ternura e misericórdia de nosso Deus, pela entranhada misericórdia veio nos visitar do alto a luz do sol nascente”. Por sua vez, Maria é o espelho do amor maternal de Deus, pois ela é sinal visível do amor misericordioso de Deus e instrumento eficaz. Na versão original grega da oração “Sub tuum presidium” do segundo século, encontramos a palavra eusplanchnia que significa o amor visceral da mãe para com seu filho. Portanto, na versão original esta oração mais antiga à Nossa Senhora começa assim: “Sob o abrigo da vossa misericórdia, nos refugiamos, Santa Mãe de Deus”. “No vosso coração maternal”, ou seja, “Sob a vossa misericórdia” nós nos refugiamos, Santa Mãe de Deus.

2. A Imaculada Conceição, obra mais sublime da misericórdia de Deus
O dogma da Imaculada Conceição indica o modo de agir de Deus desde os primórdios da nossa história. Após a trágica queda de nossos primeiros pais, isto é, Adão e Eva no paraíso, Deus não quis deixar a humanidade sozinha à mercê do mal. Por isso, pensou e quis Maria santa e imaculada no amor (cf. Ef 1,4), para que se tornasse a Mãe do Redentor do homem. “Perante a gravidade do pecado, Deus responde com a plenitude do perdão. A misericórdia será sempre maior do que qualquer pecado, e ninguém pode colocar um limite ao amor de Deus que perdoa” (Misericórdiae vultus, 3).
O amor misericordioso de Deus se manifesta aos seus filhos de duas maneiras: perdoando-lhes o pecado, como no caso de Santa Maria Madalena, ou preservando do pecado, é o caso singular de Maria Imaculada.
Santa Teresinha do Menino Jesus, compreendeu que a diferença não é entre quem pecou e quem não pecou, mas entre quem necessita de amor porque pecou, e quem teve necessidade de mais amor para poder fugir do pecado. Há quem ame pouco porque pensa que lhe foi perdoado pouco; há quem ame muito porque sabe que foi muito perdoado; e há quem ame loucamente porque sabe que tudo lhe foi perdoado por antecipação, sabe que é graça também o não ter pecado! Esta última categoria de pessoas sabe, pela misericórdia de Deus, infinitamente mais do que quem a experimentou somente nas suas quedas.
A Imaculada, por sua vez, mais do que ninguém sabe que foi agraciada. Nenhuma criatura viu brilhar sobre si o rosto misericordioso de Deus como Maria Imaculada. Ela é o fruto mais excelente do amor redentor misericordioso. O Papa Francisco na sua homilia de abertura do Ano da misericórdia disse:
A festa da Imaculada Conceição exprime a grandeza do amor divino. Deus não é apenas Aquele que perdoa o pecado, mas, em Maria, chega até a evitar a culpa original, que todo o homem traz consigo ao entrar neste mundo. É o amor de Deus que evita, antecipa e salva. O início da história do pecado no Jardim do Éden encontra solução no projeto de um amor que salva. (…) A própria história do pecado só é compreensível à luz do amor que perdoa. O pecado só se entende sob esta luz. Se tudo permanecesse ligado ao pecado, seríamos os mais desesperados entre as criaturas. Mas não! A promessa da vitória do amor de Cristo encerra tudo na misericórdia do Pai. (…) Diante de nós, temos a Virgem Imaculada como testemunha privilegiada desta promessa e do seu cumprimento.

3. Maria, Mãe e educadora de Jesus
Maria é a Mãe de Jesus e Jesus é a misericórdia encarnada. Cristo revela o Pai das misericórdias: “Quem me vê, vê o Pai”. Portanto, o pensar, o sentir e o atuar de Jesus são expressão da misericórdia divina. Em sua missão de Salvador, ou seja, missão de mostrar e atuar o amor misericordioso aos pecadores, necessitados, cativos, cegos, crianças, mulheres etc. (cf. Lc 4, 16-21; Is 61,1).
De Maria, Jesus aprendeu a misericórdia, “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem!” (Lc 23, 34) é uma oração que, provavelmente, Maria ensinou a Jesus desde Criança. E, também, a lição que Jesus ensina aos discípulos de lavar os pés uns dos outros, na última ceia, pode ser que o tenha aprendido de sua mãe, ao vê-la tantas vezes o fazer às visitas.
Maria é educadora de Seu Filho, mas ao mesmo tempo é discípula. O seu coração maternal participa e aprende do amor misericordioso. Ela experimentou a misericórdia divina, acolhendo no seu ventre a própria fonte desta misericórdia: Jesus Cristo. Ela, que sempre viveu intimamente unida ao seu Filho, sabe melhor do que ninguém o que Ele deseja: que todos os homens se salvem, que a ninguém jamais faltem a ternura e a consolação de Deus.

4. Maria, participante na suprema revelação da misericórdia divina
Maria uniu-se ao Filho no Calvário, na adoração da santa vontade do Pai. Com isto realizou até à perfeição a sua vocação de figura da Igreja. Ela agora ali está a esperar por nós. Foi dito de Cristo que “está em agonia até o fim do mundo e não convém deixá-lo só neste tempo” (B. Pascal). E se Cristo está em agonia e na cruz até o fim dos tempos, dum modo para nós incompreensível, mas verdadeiro, onde pode encontrar-se Maria, neste tempo, senão com ele, “junto à cruz”? Ali ela convida e marca encontro com as almas generosas, para que se unam a elas na adoração à santa vontade do Pai.
Maria ao pé da Cruz é a participante mais íntima na suprema revelação da misericórdia divina, pois é na Cruz que a revelação da misericórdia tem o seu ápice.
O amor de Deus é justo e misericordioso. Pela justiça, Deus exige a reparação da ofensa, ou seja, o restabelecimento da ordem certa. Pela misericórdia, Deus faz a reparação em nosso lugar (cf. Is 53, 3-5). Foi na Cruz onde aconteceu a revelação máxima da misericórdia de Deus. Maria é, portanto, a testemunha por excelência do Kénosis, isto é, da maior obra de misericórdia realizada por seu Filho, esvaziando-se totalmente na Cruz.
Ao pé da cruz, Maria, juntamente com João, o discípulo amado, é testemunha das palavras de perdão que saem dos lábios de Jesus. O perdão supremo oferecido a quem O crucificou mostra-nos até onde pode chegar a misericórdia de Deus. Maria atesta que a misericórdia do Filho de Deus não conhece limites e alcança a todos, sem excluir ninguém. (cf. Misericordiae vultus, 24). E no dia da festa de Nossa Senhora de Guadalupe, o Papa Francisco reafirma:
Ao pé da cruz, Maria vê o seu Filho que Se oferece totalmente a Si mesmo e, assim, dá testemunho do que significa amar como Deus ama. Naquele momento, ouve Jesus pronunciar palavras nascidas provavelmente do que Ela mesma Lhe ensinara desde criança: «Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem» (Lc 23, 34). Naquele momento, Maria tornou-Se, para todos nós, Mãe do perdão. Ela própria, seguindo o exemplo de Jesus e com a sua graça, foi capaz de perdoar àqueles que estavam a matar o seu Filho inocente.
Pelo Evangelho sabe-se que junto à Cruz de Jesus estava Maria, sua mãe. Por isso, Maria é chamada Co-redentora, pois se uniu ao sofrimento de seu Filho, numa consagração expiatória. Em suas aparições em Fátima, Nossa Senhora vem pedir, justamente, esta consagração, para que através do seu Imaculado Coração, os pecados do mundo sejam expiados pela penitência e os pecadores se convertam.
Numa parte do terceiro segredo de Fátima, dado no dia 13 de julho de 1917, a Irmã Lúcia relata:
Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de fogo na mão esquerda; ao cintilar, despedia chamas que parecia iam incendiar o mundo; mas apagavam-se com o contato do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: Penitência, Penitência, Penitência!
Como se pode ver pela terceira parte do segredo de Fátima, Nossa Senhora realiza sua missão de mãe, que aplaca a ira de Deus com seu poder intercessor.

II. MARIA, MÃE DA MISERICÓRDIA

1. Maria, Mãe misericordiosíssima
Com o título Mãe de Misericórdia, que, segundo opinião corrente, foi dado pela primeira vez à Santíssima Virgem por Santo Odão († 942), abade de Cluny, é com razão celebrada Santa Maria, porque deu à luz para nós Jesus Cristo, a misericórdia visível do invisível Deus misericordioso, e porque é mãe espiritual dos fiéis, cheia de graça e de misericórdia a Santíssima Virgem é chamada Mãe de misericórdia – diz São Lourenço de Brindes –, isto é, misericordiosíssima, Mãe clementíssima, Mãe terníssima, amantíssima. Na verdade, a Mãe de Jesus, agora que está no Céu, apresenta as necessidades dos fiéis ao Filho, a quem, quando estava na terra, suplicou em favor dos esposos de Caná (Cf. Jo 2,1-11).
Maria, mãe da Misericórdia encarnada, é aquela que intercede por nós junto a seu Filho, ensinando-nos a acolher a misericórdia e humildemente reconhecer nossas fraquezas e pecados, entregando-os ao Senhor Jesus, que nos salvou dando sua própria vida. Maria é uma profetiza que exalta a misericórdia de Deus. No cântico do Magnificat (cf. Lc 1,46-55) duas vezes Maria louva a Deus misericordioso: “Sua misericórdia se estende, de geração em geração, sobre os que o temem” e “Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia”. Maria exalta a Misericórdia de Deus que se faz visível em Cristo, sublinhando que a misericórdia de Deus se estende de geração em geração.
Como não lembrar de Nossa Senhora nas Bodas de Caná (Cf. Jo 2,1-11)!? Ali ela pedia a misericórdia ao povo de Israel, representados por aqueles noivos e pessoas que estavam na festa. Na miséria da falta de vinho superabundou o amor, carinhosamente solicitado por nossa mãe Santa Maria. Pois, Maria é a Mãe de misericórdia, porque seu amor faz com que se compadeça de nós e procure sempre nos salvar.
Maria nos faz compreender que a misericórdia é a vivência do amor e do perdão. O Papa Francisco, durante sua homilia na abertura da Porta Santa na Igreja Maria Maior em Roma, pronunciou: “O Filho de Deus, que se encarnou para a nossa salvação, deu-nos a sua Mãe, que se fez peregrina conosco, sem jamais nos deixar sozinhos no caminho da nossa vida, especialmente nos momentos de incerteza e sofrimento. Maria é Mãe que perdoa e, por isso, é a Mãe do perdão”.
Chamar, portanto, Maria de mãe da misericórdia significa dizer que ela conhece como ninguém, humana e visceralmente, o mistério da filiação de Deus e das vísceras do Pai, que contém também a promessa de nos fazer a todos “filhos no filho”. No Natal, Maria teve entre os braços toda a misericórdia de Deus.
Maria é Mãe da misericórdia, porque gerou no seu ventre o próprio Rosto da misericórdia divina, Jesus, o Emanuel, o Esperado de todos os povos, o «Príncipe da Paz» (Is 9, 5). O Filho de Deus, que encarnou para nossa salvação, deu-nos a sua Mãe que Se faz peregrina, conosco, para nunca nos deixar sozinhos no caminho da nossa vida, especialmente nos momentos de incerteza e sofrimento. Maria é Mãe de Deus, é Mãe de Deus que perdoa, que dá o perdão, e, por isso, podemos dizer que é Mãe do perdão. Esta palavra – «perdão» –, tão mau entendida pela mentalidade mundana, indica precisamente o fruto próprio e original da fé cristã. Quem não sabe perdoar, ainda não conheceu a plenitude do amor. E só quem ama de verdade é capaz de chegar até ao perdão, esquecendo a ofensa recebida.

CONCLUSÃO
Somos convidados a voltar os olhos para Maria, a Mãe da Misericórdia e, também, perfeita imagem da Igreja misericordiosa! Em Maria encontra-se o cumprimento da promessa de salvação, portanto, ela é o testemunho de que Deus promete e cumpre os desígnios do seu amor misericordioso.
Como figura da Igreja, Maria foi constituída depositária da Misericórdia de Deus, pois em seu ventre gerou Jesus Cristo, a Misericórdia Encarnada. Em vista desta grandiosa missão, foi antecipadamente redimida com a sua Imaculada Conceição.
Sendo Mãe de Jesus, Maria educou seu divino Filho nas ações mais básicas da misericórdia, mas também, como fiel discípula, d’Ele aprendeu e guardou em seu maternal coração todos os fatos que seu amor misericordioso dispensara à humanidade. De igual modo, a Igreja educa seus filhos na Misericórdia e procura ela mesma colocar em prática esta Misericórdia, sobretudo nas ações mais concretas.
Para nós, Maria torna-Se ícone de como a Igreja deve estender o perdão a todos os que o imploram. A Mãe do perdão ensina à Igreja que o perdão oferecido no Gólgota não conhece limites. O perdão da Igreja deve ter a mesma extensão que o de Jesus na Cruz, e de Maria ao seu pé. Não há alternativa. É por isso que o Espírito Santo tornou os Apóstolos instrumentos eficazes de perdão, para que tudo o que foi obtido pela morte de Jesus possa chegar a todo o ser humano em todo o lugar e em todo o tempo.
Maria uniu-se ao Filho no Calvário, na adoração da santa vontade do Pai. Com isto realizou até à perfeição a sua vocação de figura da Igreja. Uma vez sendo assunta ao Céu de corpo e alma, Maria não retém para si a misericórdia que recebeu de Deus, ela agora ali está a esperar por nós. E como imagem perfeita da Igreja misericordiosa, ela está sempre disposta a volver para nós os seus olhos misericordiosos e conceder-nos graças abundantes para nossa salvação eterna, mediante sua poderosa intercessão!
Que a exemplo de Maria, a perfeita imagem da Igreja misericordiosa, também a Igreja, tendo recebido de Deus as fontes da misericórdia, possa oferecer Misericórdia a todos os que nela se refugiam e aos que a ela foram confiados!

Oração do Papa Francisco à Maria, Mãe da Misericórdia
Virgem Maria, Mãe da Misericórdia, viemos hoje em nome das famílias, com as suas alegrias e fadigas; das crianças e dos jovens, abertos à vida; dos idosos, carregados de anos de experiência; de modo particular viemos diante de vós da parte dos doentes, dos presos, de quem sente mais dificuldade no caminho… Sob o vosso manto há lugar para todos, porque vós sois a Mãe da Misericórdia.
O vosso coração está cheio de ternura para com todos os vossos filhos: a ternura de Deus, que de vós tomou a carne e tornou-se nosso irmão, Jesus, Salvador de todos os homens e mulheres. Olhando para vós, nossa Mãe Imaculada, reconhecemos a vitória da Divina Misericórdia sobre o pecado e sobre todas as suas consequências; e reacende-se em nós a esperança numa vida melhor, livre de escravidão, rancores e receios.
Hoje, aqui ouvimos a vossa voz de mãe que chama todos a pôr-se a caminho rumo àquela Porta, que representa Cristo. A todos Vós dizeis: «Vinde, aproximai-vos confiantes; entrai e recebei o dom da Misericórdia; não tenhais medo, não tenhais vergonha: o Pai espera por vós de braços abertos para vos conceder o seu perdão e acolher-vos na sua casa. Vinde todos à nascente da paz e da alegria».
Nós Vos agradecemos, ó Virgem Imaculada, porque neste caminho de reconciliação Vós não nos deixais ir sozinhos, mas nos acompanhais, estais ao nosso lado e nos amparais em todas as dificuldades. Que Vós sejais bendita, agora e sempre, ó querida Mãe. Amém.

Para refletir:
1. Como tenho vivido a misericórdia na minha vida conjugal e familiar?
2. Que lugar Maria ocupa na nossa vida conjugal e familiar?

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